Te notei, noite fria, um bar, meia lua, um vestido verde estonteante, entediada, um balcão, dois copos,
aquele homem não lhe merece, olhe-me, deixe-me pagar uma bebida, adivinharei a sua preferida, errarei, então me dirá,
farei rir de qualquer bobagem, prometo, explicarei que a lua não tem sentido sem um par como nós, ganharei tempo,
eu sei, não cairá em palavras fáceis, lhe desafio a me seguir, guiarei sem direção, enrolando seu juízo.

Moça bonita, aprecie minha incapacidade de decifrar as linhas, vejo-a desamarrar-se,
soltar a corda, aliviar as pedras das costas, distraindo-se com o abandono do juízo,
rindo de ninguém, sorrindo para si, dando voz a qualquer música, flertando com a vida,
sabe sofrer, nem parece aquela menina, chorosa, lágrimas de um passado, salgado.

Amá-la, tanto mais do que se pode ser, além do que se for será,
minha incansável certeza de crer, no futuro imperfeito de amar,
todos os dias a pensar, em todas as formas, dela, ao meu lado estar,
impreterivelmente, urgentemente, sua eternidade é o céu que irei pleitear.

Bicho do Mato, fuga das confusões humanas, malditos ignorantes, estragos gratuitos,
quero ser inseto, enxergar do alto, assustar embaixo, amedrontar, só por existir de fato,
ou ser felino, os coitados aprisionados em caixas de concretos, ou quem sabe, os esfomeados,
vivendo da capada natureza selvagem, quando não são mortos por covardes, terrível Homo Sapiens.

Ela não é desse tempo, pertenceste a outros verões, antepassados, períodos incrustados,
desfilava-te com grandes chapéus de tecidos aveludados, pele branca beijada pelo sol, pequenas manchas de linho,
sorrisos fáceis, doces companhias, praças cheias de vida, seu hobby era ser ilha, objeto de fascínio, de conquista,
beleza cultuada por artistas em quadros impressionistas, era tudo sonho em vida, mundo colorido.

Deixa ir, há rocha nos ombros, pesares no olhar, amor a definhar-se,
uma voz rouca que grita, esperneia, sequer ouvida, logo silencia-se,
lágrimas inundam a face, estás o pó, o resto, nenhuma força na fadiga,
um cadáver rastejante, a saborear devagar os seus piores dias.

Deus, crias-te tudo, um universo completo,
propagador da misericórdia, decerto,
da natureza, a humana lhe falhou,
perdoou até quem lhe apedrejou.

E este homem surgiu ao mundo, trepidando, em nome do amor, do garçom e da costureira,
nem chorou, nem respirou, a vida prematuramente lhe ensinou, que lutar era o caminho, caminhou,
tinha tudo quando não era quase nada, persistente, inocente, meio delinquente, brincou, brigou, beijou,
voou sem capa e os ossos concretou, andou sobre rodas e os dentes asfaltou, experiência não lhe faltou.

Geração afobada para chegar em lugar nenhum, aprecia o fajuto, a frase curta, autoajuda,
adoram as leituras aceleradas, vocabulário raso, pensamentos infantilizados ou até ilusões baratas,
poesias fabricadas, memes virais, algo escreveu, depois nem sabe o que leu, falha interpretativa,
pior, inaptidão, raciocínio congelado, aprendem na impulsão sem desenvolver nada, lástima.

O desbravador de mares, viaja a vida por amor, iça as velas,
atravessa o grande mar sereno, o longínquo céu azul é contemplado,
as boas correntes sempre se encarregam de mostrar-lhe o moroso caminho,
o destino é uma ilha inexplorada para ancorar, descobrir maravilhas.

Beijei a lona, sangue ao chão, músculos fracos, fatigados,
indigno, resto de um lobo ferido, a fixar no chão em cada batida,
a chamar para si os cruzados de esquerda, jab frontal, uppercut final,
abre-se contagem, 33 anos, um dia o gongo soará, surras louváveis até lá.

Mulheres, subestimadas em velhos tempos, heroínas desse milênio,
guerreiras inteiras, lutadoras em guerras das armas e dos sexos,
Malala, Joana d'Arc, Tarsila do Amaral, Anita Garibaldi, tantas outras,
imortalizaram seus ideais, direitos, deveras justo, profundo respeito.

Estou esgotado, das batalhas diárias, do conflito necessário,
pondero parar, sentir o gosto amargo do fracasso em tentar,
sem que o mundo desabe de um andaime na consciência, tsunami infâme,
arrasta tudo, até minha coragem, pode vir, em frente vou continuar.

A felicidade é singular,
na sua essência habitará,
morada fará, todos poderão notar,
deixe a luz brilhar.

Os raios de sol beijam os pés, inundados na transparência líquida,
nossas mãos pregadas balanceiam vagarosamente, conexão da alma,
olhares perdem-se em tanta beleza, especialmente sua, tão minha,
areia dura, represa límpida, troncos tortuosos, repleta natureza.

Sente aqui, como está? Parece sorrir com os olhos, linda está,
a vida é mesmo feita de figuras rítmicas, envolve-nos pela melodia lenta,
os ritmos acelerados, não importa a batida, não se decora a coreografia,
as notas coloridas e os graves agudos, embalam nossos passos até a partida.

Quando serás minha? Se já és. Quando dividirás o ar? Se já o respiras sem fôlego. Quando enlouquecerás?
Se já não achas o juízo. Quando serás paixão? Se já queimas em brasa. Quando beijarás com sede essa boca?
Se todo o sal da língua já secaste. Quando serás o véu da cama? Se já te deitastes em pensamentos inquietos.
Quando olharás em meus olhos? Se já não olham a mais ninguém. Quando será minha ilha? Se já és terra, mar e fauna.

E o filho de Deus sangrou, açoitado, humilhado, até a coroa lhe cortava,
o mesmo sangue, que hoje é jorrado em vão, de um pulso, de um impulso,
a fé que Jesus provou em madeira e cruz, eternizou-se com a benção do Pai,
não é desse mundo, que se abandona na prática, por vezes, uma única voz é calada.

Odeio quem eu deveria ser aos olhos alheios,
eu sou como posso ser, a inveja não tem cor,
não há sabor, na minha existência,
eu não concedo essa dor.

Um ano a mais de vida, um a menos, cada dia, um passo ao finamento, vivendo, morrendo, lampejos,
a beleza deteriora-se, vejo as escolhas da trajetória para o sprint final, sempre tarde, quando se vai cedo,
separa-se os ciclos, fases, em todas, meu sorriso, o perfeito disfarce, lobo, passarinho, eterno bicho do mato,
discreto, sereno, se eu pudesse voar, facilitaria, e não seria eu, lá, rompendo o laço no fim da corrida.

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